“Este ano, estávamos para encher 50 milhões de litros”, afirma José Anacleto, funcionário da “antiga fábrica da Cerveja Marina”. Há 33 anos, foi com a cerveja “Marina” que a fábrica começou a laborar. Anacleto tinha 16 anos: “Entrei em 1974, mas só em Maio de 1975 a fábrica começou a colocar cerveja no mercado”.
Em 2007, no final de Outubro, vai fechar as portas. José Anacleto tem 49 anos, e não sabe o que fazer à vida. “Já me estive a informar, à procura de emprego, e a coisa não está nada fácil. Tenho uma casa para pagar e filhos, vamos lá a ver…”.
Como ele, mais 61 funcionários da UNICER-Loulé estão em maus lençóis. A administração informou-os de repente que a fábrica iria fechar por uma questão de estratégia da empresa.
António Pires de Lima, presidente do Conselho de Administração, deslocou-se mesmo ao Algarve, com outro administrador, e cara-a-cara deu a notícia que nenhum trabalhador queria ouvir, justificando a decisão com a falta de mercado e a existência de duas outras fábricas a Norte, uma em Santarém e outra em Leça do Balio.
Num plenário participado, que contou com autarcas locais e sindicalistas, houve quem dissesse: “Se existem um milhão de pessoas no Algarve no Verão, e oito milhões na Andaluzia, aqui ao lado, como é que não há mercado? Alguém deve ser despedido, mas não os trabalhadores! Esse alguém é o Conselho de Administração!”, afirmou então o dirigente da União de Sindicatos do Algarve, António Goulart.
Outro dos presentes, o presidente da Câmara de Loulé, solidarizou-se com os trabalhadores, ele que foi médico de muitos deles, já que exerceu durante anos medicina do trabalho naquela empresa.
Carlos Rodrigues, da Comissão de Trabalhadores, ainda está incrédulo: “Não se percebe, porque a fábrica estava a trabalhar bem, os trabalhadores tinham até prémios de produtividade e de pricing – verbas distribuídas consoante os resultados das vendas – e agora, isto!”, afirma. “A fábrica é viável, produtiva, e não vemos motivos para este encerramento”, acrescenta.
A administração da fábrica propôs, entretanto, rescisões amigáveis e a transferência de alguns dos funcionários para as outras unidades, mas para já, parecem existir apenas dois interessados. “As pessoas têm a vida aqui, não dá para ir lá para cima”, garante Bernardo Galvão, há 20 anos na empresa. “Tenho aqui um afilhado, e a minha casa, não posso e não quero ir”, acrescenta.
O Observatório do Algarve sabe que a UNICER propôs aos trabalhadores o pagamento de uma verba de 6 mil euros para despesas, no caso de estarem dispostos a mudar-se para Santarém, algo que, ainda assim, não estará a surtir grandes efeitos. Para os que não aceitarem, a empresa propõe 1,25 salários de indemnização por cada ano de trabalho, 0,25 por cento acima do que a lei estipula.
Terrenos que valem dinheiro
Apesar de a administração avançar com explicações financeiras para suportar a decisão, os trabalhadores estão descrentes: “Nós pedimos que nos explicassem como é que a Fábrica de Loulé só produziu sete por cento do total das unidades, mas a empresa recusou-se a fornecer-nos os dados, dizendo que a contabilidade está toda misturada e que é impossível separar esses dados. Se está tudo misturado, como é que sabem então que é sete por cento?”, questiona Carlos Rodrigues.
O membro da Comissão de Trabalhadores vai mais longe: “Uma fonte da autarquia garantiu-me que os terrenos da fábrica até já estarão vendidos, vamos averiguar isso”, afiança.
António Goulart subscreve as afirmações: “Quando um destacado deputado, como o Dr. Mendes Bota, que conhece bem a realidade de Loulé, emite um comunicado em que pede à Câmara para não alterar o tipo de utilidade dos terrenos onde está a fábrica, ele deve saber do que está a falar”, diz o dirigente da USAL.
“O que está em causa é encerrar uma unidade para fazer dinheiro, numa lógica egoísta e de lucro fácil, mandando pela borda fora os princípios da empresa”, acrescenta, criticando o silêncio do Governo e de algumas entidades com responsabilidade na região, face a esta matéria.
“Na comunidade local, não podemos continuar a assistir ao encerramento de todas as unidades fabris da região, deixando o Algarve apenas à mercê da actividade turística. É altura de as autoridades locais se pronunciarem!”, alerta.
Depois da vigília de hoje, os trabalhadores têm já agendada uma manifestação em Lisboa, no próximo dia 18, no Parque das Nações.
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