11 horas em ponto. No topo da colina, seis rodas deslizam montanha abaixo, na estrada que os faz entrar na povoação.
Depois de uma serra extenuante, a “etapa de montanha” mais difícil, é sempre a descer. José Lima e Rosa Carvalho chegam à Cortelha, a penúltima fronteira antes do fim da segunda Volta a Portugal em cadeira de rodas.
“Já fizemos 825 quilómetros, e temos vindo a andar bem, uma média de 23 quilómetros por hora”, garante, animado, o ciclista José Lima.
Nesta etapa, de 62 quilómetros, tiveram a ajuda importante do Clube de BTT de Castro Verde, que os acompanhou desde a pacata vila alentejana, em direcção ao Algarve pelas curvas e contracurvas da Estrada Nacional 2. “A dada altura, eles foram abastecer de água e pensámos que tinham desistido!”, diz, bem-disposta, Rosa Carvalho.
Não muito longe da volta do ano passado, feita sozinho, Lima diz que a edição deste ano abandonou a forma de protesto, para se tornar numa acção de sensibilização: “O primeiro objectivo é informarmos que estamos a criar em Portugal uma modalidade paraolímpica que existe em toda a Europa e em Portugal não era conhecida. O segundo é conseguir os patrocínios para comprar mais handbikes. O terceiro objectivo é uma sensibilização da sociedade em geral, dos nossos governantes, para acarinharem mais o desporto adaptado”, afirma José.
De resto, a avaliar pela receptividade que tem tido, pelo menos a sensibilização tem funcionado, e a acção tem “corrido sobre rodas”, ou quase: “A Rosa um dia saiu da estrada, foi à berma em Almeirim, mas foi uma brincadeira, não se magoou não chegou a cair. Fizemos algumas etapas completamente sozinhos, com uma média de 22,5 o que é muito bom”, afirma José Lima.
Ele paraplégico, ela portadora de paramiloidose (doença dos pezinhos) dão uma lição de vida de como dar a volta por cima às dificuldades, apesar da falta de apoios.
“Tínhamos 14 autarquias envolvidas, mas duas delas, o Porto e Aveiro, acabaram por falhar. É graças à Câmara de Loulé que trago esta handbike (bicicleta pedalada com as mãos), e para o ano, com os patrocínios talvez possamos comprar mais quatro”.
Este ano, estava prevista a participação de 15 elementos do Clube Volta a Portugal em Cadeira de Rodas, mas por falta de cadeiras apropriadas, apenas José e Rosa vieram. É que cada handbike custa 2450 euros.
A José e Rosa, valeu-lhes bem a subida à Cortelha, junto ao Barranco do Velho, em Loulé. É que, por coincidência, a Volta a Portugal em Bicicleta passou exactamente ali, direitinha a Beja e assim contou com mais dois espectadores in loco, muito especiais.
Pedalar no feminino
“Sinto-me muito bem, para quem está a fazer isto pela primeira vez. Acho é que é preciso quebrar a vergonha, porque há muitos jovens que podem praticar este desporto”, diz Rosa, 48 anos ao Observatório do Algarve.
Dona de uma energia invejável, diz que por ser mulher não se sentiu discriminada, não mais do que por ser deficiente motora. “Curiosamente, não se vê muitas mulheres em cadeiras de rodas, eu gostava de ver mais”, confessa.
Ao volante da cadeira que Lima usou em 2007, tenta acompanhar a sua pedalada, algo que nem sempre é fácil devido sobretudo ao maior peso da cadeira. “É que essa pesa 25 quilos e esta handbike pesa 11. Por isso, às vezes trocamos”, confidencia Lima.
Em 1986, a paramiloidose atirou-a para a cadeira de rodas. Antes disso, corria, jogava futebol e fazia gincanas de mota.Já José Lima teve um acidente de trabalho em Angola, em 1997. Um elevador em que estava a fazer manutenção desgovernou-se e esmagou-o contra o tecto do fosso. Um colega, que também estava no local, morreu.
Estórias que ficam para trás, tanto quanto for possível, pela vontade de quebrar barreiras, quem sabe nos Paralímpicos de Londres em 2012.
Hoje, na Volta a Portugal em Cadeira de Rodas, cumpre-se a última etapa, entre Alte e Quarteira, onde serão recebidos cerca das 11h00. Mas para além da importância do final da prova, José Lima não esconde uma vontade: “Se calhar vou provar a água. Dizem que a praia é acessível, se calhar vou com roupa e tudo!”, admite para fechar com chave de ouro os 900 quilómetros entre Valença e o litoral algarvio.