Esta poderia ser uma primeira conclusão sobre o debate “Turismo residencial no Algarve. Que posicionamento? Que estratégias?” que o Aeroporto Internacional de Faro promoveu hoje em Vale de Lobo.
O aeroporto assumiu o papel de facilitador “de processos de troca de informação e de reflexão sobre questões-chave relacionadas com a procura turística” como referiu ao Observatório do Algarve António Correia Mendes. O director da estrutura acabaria por conferir à iniciativa algum valor acrescentado: discutir as divergências para criar alguns consensos.
Na sessão de abertura estiveram Heitor da Fonseca, do Conselho de Admnistração da ANA- Aeroportos de Portugal e António Correia Mendes - Director do Aeroporto de Faro.
António Pina presidente do Turismo do Algarve, Jorge Umbelino - Turismo de Portugal e Pedro Ferré , Vice Reitor da Universidade do Algarve completavam o painel.
E as diferentes perspectivas não se fizeram esperar, a começar pela dificuldade “na sua correcta avaliação”.
As companhias low cost também influenciaram criando novas rotas e há "novos conceitos e modelos de negócio". Pelo seu lado, a ANA tem de conhecer novos investimentos e mercados em que aposta o Algarve, para poder negociar rotas e adequar os serviços, sugeriram os organizadores.
“Não pode ser como a pesca à linha”
Para Vitor Neto, interveniente no painel “Turismo no Algarve – Visão Global”, moderado por Nuno Aires, vice-presidente do Turismo do Algarve, “não pode ser como a pesca à linha, com umas reivindicações avulsas, mais a concessão de uns milhões aqui e acolá. Para se discutir o turismo residencial tem de se discutir o turismo em termos estratégicos”, salientou.
Lembrando que “o turismo sempre teve componente imobiliária” o presidente do NERA -Associação Empresarial da Região do Algarve, declarou como “inúteis as discussões filosóficas sobre a matéria”.
As suas preocupações centram-se sobretudo no facto de “o turismo nacional não ter crescido desde 2000, comparativamente a outros destinos concorrentes no Mediterrâneo”. Em dez anos o turismo da Europa cresceu mais 100 milhões de viajantes, a Grécia 3 milhões, a Croácia 11 milhões e a Turquia 16 milhões. “Duzentos milhões vêm pelo imaginário do Mediterrâneo, pelo clima, património e hospitalidade”, salientou.
Para Vitor Neto as palavras-chave neste sector são “equilíbrio, peso e medida” entre os diversos sectores da oferta, lembrando que “são targets diferentes os que querem cá viver 365 dias, os que compram para férias e fins-de-semana e aqueles que adquirem imobiliário para mais tarde vender e realizar mais-valias”.
Já Elidérico Viegas, da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve adoptou um tom conciliador, clamando que “a guerra entre hotelaria tradicional e imobiliária desvaneceu-se”, sem contudo deixar de lembrar a existência de 120 mil segundas residências, de 100 mil residentes temporários, 90% dos quais são oriundos do Reino Unido o que o leva a concluir que a maioria dos visitantes desse mercado emissor “não usa a hotelaria tradicional”.
“Podemos não ser competitivos em turismo de hospedagem, mas no turismo residencial há uma boa oferta. Ninguém compra uma casa na Turquia”, pelo que temos de procurar funcionar diferenciadamente da oferta no Mediterrâneo, concluiu.
Aparentemente assim é, mas "o mercado líbio apresentou números interessantes", retorquiu Vítor Neto.
Interpretação criativa da lei
Macário Correia, autarca de Tavira, trouxe para a mesa a questão da habitação dispersa no barrocal “a pensar em soluções que permitam a retoma”.
Se por um lado, a ocupação da meia encosta da serra, maioritariamente de turismo residencial “ajudou bastante as freguesias rurais”, terá havido uma interpretação muito criativa do primeiro Plano Regional de Ordenamento do Algarve: “Construíram-se casa em quintas, graças a ruínas que foi preciso arqueólogos para descobrir”, diria com ironia.
O autarca espera agora que “não existam interpretações tão tolerantes nos concursos para a contratualização das 24.000 mil camas do 2º PROTAL.
Para ele, o turismo residencial “tem de ser visto com algum rigor”, sobretudo se conduzir à dispersão, pelos custos onerosos das infra-estruturas, as questões de segurança, os necessários investimentos em acessibilidades e comunicações. “Os autarcas têm de induzir novas soluções, ser pró-activos e olhar o território antecipando o futuro”, sustenta.
Algarve construiu 55% em 10 anos
Em 10 anos, a ocupação do solo (construção) aumentou 55% e há concelhos que têm mais do que 20% da sua área urbanizada. “Não podemos continuar a consumir este recurso a este ritmo, superior ao da Andaluzia”, alertou por sua vez Porfírio Maia, arquitecto e vice presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve.
Para ele, “não há um problema de turismo residencial, mas de ordenamento, e quem se dedica ao urbanismo "tem de procurar qualidade de vida para os cidadãos, sejam residentes ou turistas".
Porfírio Maia lembrou que a paisagem é uma das maiores mais-valias no turismo, assim como o património. “Encaro o turismo como um factor de desenvolvimento, mas ainda há um longo caminho a percorrer para o desenvolvimento ser sustentado”.
Por isso, “hoje é mais fácil o acordo pela negativa, naquilo em que haja consenso sobre o que não é desenvolvimento”, propôs.
Carlos Costa, da Universidade de Aveiro, deixou no ar a interrogação: “Que se passa connosco? Há modelos alternativos a ser discutidos há muito e continuamos a desbaratar meios”.
Com uma “crise profundíssima” e a tendência para o mercado “estagnar ou cair” é, em sua opinião, “mais correcto investir na qualidade da oferta do que aumentar a dívida pública em promoção nos mercados parados ou a recuar”.
“A marca sol e praia se for uma marca branca, sem diferenciadores, pode transformar-se nos têxteis do turismo”. Daí que advogue “um plano estratégico de turismo virado para as empresas eficientes e não para as áreas definidas por decreto” para abrir auto-estradas “entre as empresas e as organizações”.
Princípios que o Quadro de Referência Nacional (QREN) consagra, mas que não estão a ser colocados em prática, criticou ainda o investigador.
Antes da apresentação de alguns dos dados do estudo que Cláudia Almeida está a conduzir, incidindo sobre o perfil do turista residente, Tomas Mazon, catedrático da Universidade de Alicante, fez um relato impressionante das consequências do mau planeamento e das perversões do turismo residencial na costa espanhola.